História e ficção na figuração de personagens de Memorial do convento

JÚLIA CRISTINA FIGUEIREDO

Em Memorial do convento, é muitas vezes pelos interstícios do passado, contado de forma parcial e parcelar pela História, que o romancista se move com a sua criatividade ficcional, reclamando ao leitor o preenchimento dos vazios deixados pelo narrador no mundo ficcional. É sobre os efeitos desta interação autor-ficção-leitor na construção das personagens que refletimos, pois é nestas que se consubstancia a principal prioridade de Saramago: o ser humano – “é a matéria do meu trabalho, a minha quotidiana obsessão, a íntima preocupação do cidadão que sou e que escreve”, como nos diz em A estátua e a pedra (SARAMAGO 2013, 37). Consideramos que a personagem é, na narrativa ficcional, e em Memorial do convento de forma muito vincada, a categoria mais poderosa do universo criativo do autor. Pelo conceito de figuração este texto analisa as personagens de Memorial do convento não só os seus rastros textuais, criado pelo nome e pelas características que se vão espalhando pelo mundo narrativo, em descrições, em ações ou no discurso, mas percebendo que outros procedimentos e recursos estão investidos na construção dessa categoria narrativa a ponto de ela se apresentar com uma identidade distintiva no texto e definida num modelo mental do leitor, constituindo-se, portanto, como figura, numa modelação capaz até de se autonomizar do texto matricial.

Palavras-chave: História. Figuração. Personagem. José Saramago.