n.3, vol. 1, jan. 2016

APRESENTAÇÃO
Foi José Saramago quem, com sua obra e o discurso lido durante a cerimônia de recepção do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, chamou atenção sobre o compromisso dos vivos em relação à memória dos mortos. Seu apelo não reside na mera lembrança dos que partiram, nem na sobrevalorização do passado sobre o presente, nem sua reprodução, tampouco no retorno. Reside, sim, na necessária compreensão para não repetir as imperfeições que ousamos insistir em repetir, muitas vezes de forma mais elaborada e ousada, mesmo sabedores de suas consequências.

Nesse ínterim, parece visível que as vozes do passado não podem apagar-se de um todo – ainda que nossa memória seja limitada – porque elas participam no enforme do presente; um corte entre essa relação – que deve ser contínua e dialética – é muito caro à formação da cultura e da comunidade humana. Isto é, elas são fundamentais no andamento de um necessário processo de reforma dos modelos construídos e sustentados pela civilização, o que, por sua vez, aplica-se com a mesma precisão quando o assunto não é o acontecimento histórico em si mas a impressão, por exemplo, cunhada sobre determinado aspecto da obra de arte, para citar o centro do porquê recuperar nesta apresentação o cerne dessa reflexão de natureza ampla e já esboçada em outras ocasiões destas publicações semestrais.

A REVISTA DE ESTUDOS SARAMAGUIANOS tem, assim, com sua existência, também a necessidade não apenas de evidenciar percepções integradas à reflexão sobre o homem e sua relação com os mais diversos aparatos a partir da literatura que tão bem problematizou e pensou tais questões mas compreendê-las enquanto integradoras do que somos enquanto humanidade e sociedade.  No mesmo instante em que sabemos ser construtores de um percurso que julgamos fundamental no extenso arquivo de vozes e reflexões em torno dessa literatura sabemos que toda obra literária evidentemente nunca se sustentará sozinha tal como acreditam os mais céticos da criação artística porque ela é produto de uma vivência, uma tessitura de vozes compositoras de uma densa e complexa camada feita de intercepções entre o presente do escritor e o passado; além disso, é a literatura peça que intervém como um dos aparelhos indispensáveis à constituição do que somos e dos aparelhos comunitários que criamos.

Também José Saramago terá dito sobre a importância do ato da leitura para que o livro completasse sua existência e por isso mesmo exercitou uma escrita cuja participação desse indivíduo que está na outra ponta da cadeia da escrita saísse do seu estágio de passividade e de letargia e se colocasse na posição de construtor da obra. Nessa integração, à medida que produziu uma obra interessada na refundação dos discursos pela intervenção ativa das vozes do passado, buscou fazer desse exercício uma prática experimentada primeiro pelos sentidos depois pela ação; quis e fez da literatura ínterim entre o homem e a existência.

É a ciência sobre a importância das vozes lançadas num passado e a necessidade de revigorá-las – em consonância com o apelo ao leitor na construção do que poderíamos chamar de sobrevida do livro – que sublinhamos dois textos reproduzidos na edição agora apresentada: o do professor Cláudio Capuano (em memória) e o da professora Joanna Courteau, ambos já conhecidos de um público restrito de leitores da obra saramaguiana – o primeiro, da língua portuguesa do núcleo brasileiro e o segundo, da língua espanhola. Um aponta para um dos temas mais caros à literatura saramaguiana – e já lidos de maneira diversa por outros leitores, o feminino; outro, para uma obra que talvez seja uma das mais ricas em referências simbólicas (daí a possibilidade de interpretações jamais esgotadas) e uma das que tornou em relevo o flerte que a obra de Saramago manteve sempre aceso com a literatura de língua espanhola e com a escola do chamado realismo mágico a qual tiveram como exímios mentores nomes como o do cubano Alejo Carpentier; Courteau exerce sua reflexão na centelha ainda desses dois para deslindar um ponto de interrogação colocado a partir da afirmativa de Carpentier introduzida por José Saramago no romance em questão: “Todo futuro es fabuloso”. Qual futuro?

São contemplados nesta edição, além do teatro saramaguiano, e do romance A jangada de pedra (do qual trazemos ainda a reprodução de algumas páginas de notas manuscritas de José Saramago), reflexões sobre a identidade a partir da leitura quase integral da obra romanesca do escritor português, da leitura de As intermitências da morteA viagem do elefanteMemorial do convento e Todos os nomes, todas com abordagens cuja preocupação nascida no texto literário logra ampliar ou lançar algumas lufadas sobre a complexa realidade humana, todas atentas a não se descuidar da literatura como espaço de saber, tal como compreendeu Roland Barthes na sua aula de chegada ao Collège de France – “A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa.”

Resta-nos desejar uma prazerosa incursão por mais esta edição de vozes atentas aos lugares percorridos pela força da literatura saramaguiana.

Equipe editorial

SUMÁRIO

As semióticas do nome: identidade e anonimato na obra de José Saramago
JOSÉ ENRIQUE FINOL
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Os penitentes de Saramago
CIRO LEANDRO COSTA DA FONSÊCA; JOSÉ ROSAMILTON DE LIMA
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Vozes femininas no teatro de José Saramago
CLÁUDIO SÁ CAPUANO
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Um elefante que cala, um humano que se interroga: 
José Saramago en(tre) a fronteira da comunicação animal e a 
linguagem humana
JIMENA BRACAMONTE; ARIEL GÓMEZ PONCE
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Dom Quixote e A jangada de pedra: o mundo transformado
JOANNA COURTEAU
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CADERNO DE NOTAS MANUSCRITAS DE JOSÉ SARAMAGO PARA A 
COMPOSIÇÃO DO ROMANCE A JANGADA DE PEDRA

Arquitetura de Todos os nomes. Geometria e atmosfera do 
conservadorismo geral
JOSÉ JOAQUÍN PARRA BAÑÓN
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Saramago por Saramago
ANTÓNIO JOSÉ BORGES
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As intermitências da morte em José Saramago: 
análise do discurso e os conceitos sobre velho, velhice e envelhecimento
HUGO LEONARDO PRATA; EDMUNDO DE DRUMMOND ALVES JUNIOR
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* Os textos estão em formato PDF. Ver edição completa.