n. 9, vol. 1, jan. 2019

APRESENTAÇÃO

José Saramago, um autor para o século 21. Assim poderíamos designar, entre tantas outras possibilidades, o lugar da obra e do pensamento do escritor Prêmio Nobel de Literatura em 1998. A afirmação em jeito de conclusão não é um arroubo gratuito de leitores entusiastas da sua obra literária. Pode até ser motivada por esta condição, mas encontra justificação noutras possibilidades, quais as oferecidas pela sua própria literatura e pela maneira como construiu as amplas fronteiras de interpretação do seu tempo. A estes dois elementos internos de um universo que não é mais, desde há muito, limitado ao seu lugar natal, soma-se a sorte de passos em falso que a comunidade humana tem dado no limiar das duas primeiras décadas deste século.

Expressemos então, primeiro as primeiras condições. Para tanto, vamos recuperar um de seus romances que figura entre os levados injustamente à fogueira aquando de sua aparição – Ensaio sobre a lucidez. Publicado ainda na aurora do novo século, esta obra foi lida, de maneira apressada, como um insulto à democracia pela implosão do poder de escolha pelo voto. Ao imaginar uma sociedade que se decidia pelo voto em branco ao invés de eleger algum dos candidatos que disputavam o pleito, Saramago precisou responder o óbvio: que o seu romance não era um insurgência contra o voto e sim uma maneira de questionar, pela via oblíqua do trivial, as razões que justificam a repetição fátua do gesto como pleno exercício da democracia.

Nesta ocasião, se o sistema estabelecido de um longo exercício de lutas contra as ditaduras que fizeram história no ciclo dos horrores da humanidade dava sinais de plenos passos em direção a lugares de ares mais limpos, não se viu o que se armava por debaixo dos encantamentos com o novo século. E ainda estávamos tomados da mesma esperança de um mundo mais justo, humano e fraterno, depois de enfrentarmos o medo mais sistêmico da catástrofe. Era para o céu que olhávamos à espera que um asteroide errante pudesse colocar um ponto final à civilização e não víamos que entre nós outras forças não de um todo sepultadas – porque nunca se sepultam – reanimavam o ferro de seus músculos para nos surpreender, quase duas décadas depois, com uma pulsão de ódio tão ou mais violenta do que as exercidas no passado.

José Saramago não estava entre os deslumbrados com o novo mundo. E foi por isso que o chamaram reiteradas vezes de um pessimista. Pessimista ou não, tantos anos depois é mesmo possível dizer que o epíteto foi outro julgamento forçado. O caso é que, enquanto todos se deslumbravam ou temiam a exterminação da civilização vinda do além, este homem de dupla visão sobre seu tempo, antevia a necessidade de trocarmos a posição de deslumbrados pela de questionadores da ordem. Não foi um profeta, que afinal isso não é nenhum escritor, mas crítico. Soube nos dizer que as coisas não estavam bem. Que nosso olhar devia se deslocar do além para verificar nosso entorno, problematizar os sofisticados sistemas que nos regem como alternativa para sua ressignificação. Pelas respostas obtidas, estávamos já metidos no primeiro grau da cegueira que agora se alastra como rastilho de pólvora no Ocidente.

Ensaio sobre a lucidez colocava em prática o conselho oferecido em Ensaio sobre a cegueira. Era um romance que, à maneira da execução de um roteiro coloca em prática aquilo que os habitantes tomados pela cegueira branca não foram capazes de fazer nesse tempo: reparar. No caso específico do romance de 2004, pergunta-se se nossas escolhas realizadas continuamente, de fato, constituíam um exercício do que se chamava de democracia. Se esta não era apenas um princípio que acobertava disfarçadamente aqueles que, de fato, nos geriam. No seu tempo, Saramago chamou o encoberto de capital. Tantos anos se passaram e continuamente tem-se revelado, peremptoriamente, o que disse: são as grandes corporações financeiras as gestoras e determinantes dos que vimos por chamar respeitosamente de representantes escolhidos pelo povo.

E agora, para sublinhar o que se vê fora do universo fabulado, já somos parte de um imbróglio cujo destino dos que questionam deve ser calado pela cilada do poder ou pela banalização do mal, cuja imposição do medo repentino da morte é apenas uma das frentes de atuação do que agora não se pode designar por democracia. O pior de tudo: os que deviam servir de fiscalizadores daqueles que elegeram tornam-se seus cúmplices, desfazendo totalmente a engrenagem do princípio democrático: o eleito é para servir à comunidade e não a uns dos seus próprios conchavos com aval da própria comunidade. Outra vez voltamos ao tempo imóvel, àquela atmosfera pesada, desesperançada e claustrofóbica dos primeiros movimentos de O ano de 1993? É possível que bem pior. Porque agora o mal não tem cor, não tem ordem, nem princípios, não está à sombra, nem só um ou um grupo de poder o administra, mas está em toda parte e a qualquer hora pode nos chegar.

É pelo que deixamos de fazer enquanto nos deslumbrávamos com a promessa do porvir que pagamos pelo descortinar de trevas? Sim. Mas, antes de pensar os lugares da culpa, urge pensar em saídas e estas não estão no passado ou fora do nosso tempo. Não se luta com as mesmas armas quando o adversário é o outro do mesmo muito pior e a história não deixa pensarmos de outra maneira. O que faríamos, agora indivíduos presos nos seus próprios mundos, em tempos de banalização do mal? Ensaio sobre a lucidez não oferece, nem é de sua função, a resposta. Simplesmente porque esta é uma resposta que precisa ser construída. E agora precisamos recomeçar pelo princípio mais básico de todos e que neste tempo é a primeira subversão ao levantamento das excrecências, o comunitarismo. Sozinhos, findaremos qual a mulher do médico.

O leitor da obra de José Saramago que seguiu este texto até aqui terá compreendido as razões da definição apresentada no início desta apresentação. Toda obra do escritor português se reveste do questionamento acerca dos movimentos de poder e assinala a ordem porque passamos e estamos distante de superar, visto que a história da humanidade tem sido repetidamente um continuum jogo de poderes, entre forças de dominação e forças de liberdade. Para além disso, todas as intervenções saramaguianas estiveram alinhadas com o imperativo de revisão de nossos lugares no intuito de construirmos uma alternativa possível, nua dos predicativos da imposição, do sectarismo e do cerceamento das liberdades. A pergunta que fica é: sairemos da inércia, da repetição das ideias fracassadas, da contemplação desinteressada, desse conforto que ainda julgamos ter enquanto o rastilho de pólvora não chega até nós? Esperamos pelo quê? Ainda estaremos à espera do retorno do herói? “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.

Equipe editorial

SUMÁRIO

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Saramago cronista: o homem frente ao espelho
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